A osteoporose na odontologia
A doença que atinge principalmente as mulheres na fase da pré e pós-menopausa ganhou espaço nas discussões promovidas pelos cirurgiões-dentistas. A entrevista com o Dr. Augusto Roque Neto apresenta a osteoporose no âmbito odontológico.
Por: Vanessa Navarro
Odonto Magazine - Como a osteoporose se manifesta no âmbito odontológico?
Dr. Augusto Roque Neto - A osteoporose é uma doença metabólica crônica e progressiva que altera a integridade estrutural do osso, podendo manifestar sintomas no sistema maxilomandibular. Ela se caracteriza por uma queda na produção dos hormônios progesterona e estrogênio.
Os sinais mais comuns, aos quais o profissional deve estar atento, são: a reabsorção óssea do rebordo alveolar e a redução óssea alveolar, sem que haja motivo local para causá-las.
Na literatura, basicamente, são citadas dois tipos:
- Tipo I primária: é aquela pós-menopausa e que leva à intensa reabsorção óssea.
- Tipo II primária: caracteriza-se por uma menor formação óssea.
Odonto Magazine – Qual é a população mais vulnerável à osteoporose odontológica?
Dr. Augusto Roque Neto - A população feminina é mais vulnerável. Estudos mostram que principalmente as mulheres brancas e orientais na fase pré e pós-menopausa são as mais acometidas pela doença. Engana-se quem acha que os homens não possam apresentar osteoporose, ela ocorre em aproximadamente 18% da população masculina contra quase 60% das mulheres.
Conclui-se, então, que a osteoporose se apresenta em ambos sexos, com predominância do sexo feminino a partir da quinta década de vida, quando os sinais e sintomas da menopausa e andropausa começam a se manifestar.
Odonto Magazine - Como é possível identificar o paciente vítima de osteoporose odontológica?
Dr. Augusto Roque Neto – Raramente um paciente terá o diagnóstico de osteoporose odontológica, ela vai ser mais uma manifestação de um quadro geral. Salientamos que, na maioria das vezes, os diagnósticos são feitos quando existe uma fratura, sem motivo relevante.
O profissional deve atentar principalmente a idade do paciente e relatos de perdas de elementos dentários. Na literatura existem citações do paciente acusar dor nas gengivas ou mesmo de mobilidades dentárias sem causa aparente, como contatos dentários com sobrecarga ou de doença periodontal presente.
Outra causa citada é o uso de corticoides por tempo prolongado, o qual pode causar ou desenvolver a osteoporose.
O hipertireoidismo também é uma causa frequentemente citada como fator de agravamento da osteoporose, assim como a quimioterapia. Outra forma possível é o da mensuração da densidade óssea.
Odonto Magazine - Que outras patologias bucais podem ser desenvolvidas a partir da osteoporose odontológica?
Dr. Augusto Roque Neto - As patologias mais frequentemente relatadas são as de agravamento de doenças periodontais e possibilidade de fraturas por deficiência de massa óssea.
Odonto Magazine - Como o profissional de odontologia deve proceder ao iniciar o tratamento de tal doença que afeta também a saúde bucal do paciente?
Dr. Augusto Roque Neto - Deve existir uma mão dupla entre o médico e o cirurgião-dentista. Muitas vezes pela avaliação de uma radiografia panorâmica somada com outros sinais, como idade e perdas de elementos dentários sem causa aparente, o cirurgião-dentista pode indicar ao paciente a procura de um médico, e este traçar um tratamento mais eficaz ao problema, ficando a critério do profissional indicado, junto com o paciente, encontrar a terapia mais apropriada no caso, geralmente um estudo das necessidades de uma reposição hormonal.
Odonto Magazine – Existem estudos científicos para abordar o tema na odontologia?
Dr. Augusto Roque Neto - Existem muitos estudos científicos abordando o tema osteoporose e a odontologia, principalmente nas áreas de implantodontia, onde a qualidade óssea é de fundamental importância para o êxito do tratamento, assim como na periodontia e cirurgia.
Os grupos de estudo, principalmente os da FOUSP e da FOUNESP, são grandes fornecedores de trabalhos de pesquisa.
A radiologia odontológica, com a melhoria técnica das tomadas panorâmicas, vem sendo de grande auxílio como meio de diagnóstico.
Odonto Magazine - Qual é a relação direta entre a osteoporose, a menopausa e a doença periodontal?
Dr. Augusto Roque Neto - Existe uma relação direta entre a osteoporose, menopausa. Não podemos nos esquecer da andropausa e da doença periodontal.
Com a perda ou diminuição do osso alveolar existe mais quantidade de espaços dentários abertos com consequente acúmulo de placa, muitas vezes de difícil limpeza e controle por parte do paciente, estando assim, aberto um foco de desenvolvimento ou agravamento do quadro de doença periodontal.
Odonto Magazine – Como o cirurgião-dentista deve tratar o paciente neste momento de mudanças fisiológicas e psicológicas?
Dr. Augusto Roque Neto – Neste momento delicado da vida do paciente, afinal as transformações são mais aparentes e muito mais drásticas do que na puberdade, o profissional de saúde deve servir de orientador ao paciente, Tentar, na medida de seu conhecimento, esclarecer as dúvidas. Lembre-se que não é demérito para ninguém não saber resolver ou explicar todas as questões. Neste caso, o cirurgião-dentista deve procurar se orientar com outros profissionais, afinal tudo é um grande aprendizado para todos.
Odonto Magazine - Existe algum treinamento específico para o profissional de odontologia interessado em se especializar no tema?
Dr. Augusto Roque Neto - O profissional pode participar dos grupos de estudo citados anteriormente, mas não existem cursos de especialização focados estritamente na área da osteoporose. A doença é sempre discutida como tema de fundamental importância, principalmente nas áreas de periodontia, cirurgia e implantodontia, pois os resultados dos tratamentos dependem da qualidade óssea e da orientação profissional para manutenção adequada do quadro de osteoporose.

Dr. Augusto Roque Neto
Cirurgião-Dentista formado pela FOUSP. Especialista em Dentística Restauradora. Mestre em Clínicas Odontológicas pela FOUSP. Professor Adjunto das disciplinas de Odontogeriatria e Dentistíca Restauradora da Faculdade de Odontologia da Universidade Metodista de São Paulo. Autor do livro: “Bases Clínicas em Odontogeriatria”, da Editora Santos.
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